Carta aberta à mulher que chamou minha fertilização in vitro de pecado

Carta aberta à mulher que chamou minha fertilização in vitro de pecado

Antes de tudo, nunca te perguntei.

Voc√™, que foi criado como cat√≥lico (como eu), foi criado para acreditar no poder curador do amor e do sacrif√≠cio, sabe o quanto eu sacrifiquei por essas crian√ßas? Quantas agulhas eu enfrentei? Quantos procedimentos eu suportei? Quantas vezes fui ao pronto-socorro com convuls√Ķes de dor insuport√°vel? Voc√™ sabe quantas l√°grimas eu derramei?

Você, que concebeu seu primeiro filho porque esqueceu o preservativo uma vez, já pensou em como é andar uma milha proverbial em um sapato de mulher infértil?

Você sabe como é quando seu corpo quebra o coração que abriga, recusando-se a satisfazer seu desejo mais profundo?

Você sabe como é chorar outro teste de gravidez negativo, apenas para retirá-lo do lixo uma hora depois, rezando para que uma segunda linha apareça magicamente?

Você sabe quanto amor contribuiu para a criação dessas crianças? Que eles nascem do amor entre marido e mulher, entre esperanças dos pais e uma família imaginada, entre uma mãe e a mera idéia dos seus futuros filhos?

Você acha que o fato de eles terem passado uma parte infinitesimal de suas vidas em um laboratório antes de eu carregá-los muda isso?

Você sabia que toda vez que eu os sentia se mover dentro de mim, meu coração estava cheio de gratidão?

Você sabe como meu corpo os nutria? Como compartilhamos os mesmos nutrientes, o mesmo oxigênio, os mesmos batimentos cardíacos?

Voc√™ sabe que nossos cora√ß√Ķes caem nesse ritmo sincronizado e familiar quando eu os mantenho perto de mim agora? Que nossos cora√ß√Ķes ainda falam um com o outro?

Você pode imaginar o quanto eu os amo? Quanto eles me amam em troca?

Você realmente acredita que algo que traz mais amor a este mundo pode ser um pecado?

Você, que disse que meus ovários cheios de cisto eram apenas parte de um plano maior, você já parou para pensar que talvez conhecer os milagres na clínica de fertilidade também fizesse parte desse plano?

Se você visse uma criança atropelada enquanto corria pela rua, não ligaria para o 911, atribuindo o acidente ao destino?

Voc√™, que disse que era imoral usar todos os meios necess√°rios para engravidar, percebe que a maioria dos casos de infertilidade √© considerada condi√ß√Ķes m√©dicas trat√°veis?

Se um dos seus entes queridos sofria de um c√Ęncer que poderia ser curado com quimioterapia, voc√™ recomendaria que ela recusasse o tratamento? Voc√™ diria a ela que √© errado combater o destino e que ela deve morrer prematuramente, nas m√£os de um tumor, mesmo que existam seres humanos talentosos e compassivos que possam ajud√°-la?

Voc√™, que me acusou de jogar fora embri√Ķes n√£o utilizados ou fracos como lixo, voc√™ sabe que eu me recusei a descartar at√© o embri√£o mais baixo com classifica√ß√£o m√©dica?

Voc√™ sabia que todos os embri√Ķes que n√£o transferi de volta para mim foram tratados com o m√°ximo cuidado e que eles s√£o seguros em um centro m√©dico, pequenos vislumbres de esperan√ßa com potencial para nos presentear ou a outro casal em dificuldades, se decidirmos doar um lindo beb√™?

Você, que me acusou de tomar a vida como garantida, sabia que eu chorei por cada ovo que não amadureceu?

Todo embri√£o que se formou, mas parou no seu desenvolvimento?

Todo blastocisto transferido que n√£o gruda?

Cada almofada manchada de sangue que significava que meu √ļtero n√£o estava envolvendo a crian√ßa que eu tanto ansiava?

Voc√™ sabia que eu acendi velas? Distribuiu cart√Ķes de ora√ß√£o? Chorei at√© que eu n√£o sabia mais o que era ter vis√£o clara e bochechas secas?

Olhe para meus filhos Рmeus lindos, vibrantes, milagres nascidos de amor. Observe-os iluminar uma sala e trazer um sorriso até para os rostos mais sombrios.

Ouça como a palavra mamãe dança nos lábios, como um segredo precioso, uma carta de amor verbal dirigida à mulher que lhes deu vida.

Observe-os contemplando o mundo com olhos arregalados, encontrando alegria no mundano, risos no silêncio, amor no vazio.

Vejo os olhos deles brilharem quando pergunto se eles querem dar uma volta na carro√ßa. Observe-os apontar os avi√Ķes acima, imitar o som de um trem que passa, rir das sementes de dente de le√£o que flutuam no c√©u e fazer c√≥cegas no nariz.

Ou√ßa a maravilha em suas vozes quando eles capturam um raro vislumbre da lua em plena luz do dia, seus gritos de excita√ß√£o lembram um curral, enquanto eles viram a cabe√ßa das pessoas com explos√Ķes barulhentas de Moo! Moo!

Veja-os acenando para o carteiro, grite Oi! ao motorista da UPS e sorria para o lixeiro.

Observe suas sobrancelhas franzirem com preocupação genuína quando elas vêem alguém recebendo um boo boo no playground.

Escute-os cantar Twinkle Twinkle, Little Star, fora da chave, mas cheia de vida.

Deixe-os pegar sua m√£o na deles. Sinta seus dedos min√ļsculos e cobertos de sujeira abra√ßando os seus em um dom√≠nio de confian√ßa inalterada.

Você pode me chamar de pecador, e eu não vou negar. Serei o primeiro a admitir que não sou santo.

Eu sou humano. Eu sou falho. Cometi erros e tenho muitas coisas pelas quais me desculpar.

Mas ser mãe é não um deles.

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