Por que nunca vou reclamar de falar demais

Por que nunca vou reclamar de falar demais

Por que nunca vou reclamar de falar demais

10.000 horas / Getty

Da entrada da cozinha, olho atrav√©s da minha lavanderia para o sol nascente. Eu vejo a janela da cozinha dos nossos vizinhos. A luz da cozinha est√° acesa. Vejo uma sombra fraca passando pela janela deles e agrade√ßo por n√£o sermos os √ļnicos acordados a essa hora.

Mamãe, mamãe! A voz de Charlottes flutua pelo corredor. Leia meus livros, eu a ouço dizer.

A, B, C. Um sorriso se forma quando a vejo olhando seus livros, apontando para as letras que ela conhece e pode dizer. Em seguida, ouço uma batida e as duas crianças começam a se comunicar através da parede compartilhada.

Charlotte começa, 1, 2, 3, e é recebida pela voz de seus irmãos mais novos, 4, 5, 6!

A partir deste momento, a manhã fica mais alta. E com cada som, palavra e frase, agradeço.

Pois houve um tempo em que as palavras n√£o estavam l√° e n√£o havia barulho em nossa casa. A comunica√ß√£o consistia em linguagem de sinais e apontamentos dos dedos e meus suspiros e preocupa√ß√Ķes, imaginando se algum dia chegaria a fala da minha filha. Por√©m, nunca falhava que outros me garantissem que, uma vez que minha filha come√ßasse a falar, eu gostaria que ela parasse de vez em quando.

Lembro-me dos comentários feitos durante os primeiros anos das minhas filhas, quando tudo o que eu desejava era uma palavra: Apenas espere, quando sua filha começar a falar, haverá dias em que você deseja que ela pare de falar!

Ou o sentimento semelhante: Não há pressa para eles começarem a falar porque, uma vez que o fazem, nunca param.

No fundo, eu sabia, e silenciosamente prometi a mim mesmo, que nunca pronunciaria essas palavras. Meu próprio diálogo interno temia que nunca chegássemos lá porque ela não falaria, então não pude imaginar um tempo cheio de palavras, frases e histórias. Parecia que toda semana eu perguntava ao fonoaudiólogo uma variação da mesma pergunta: Charlotte fala? Cercada por crianças conversando e ouvindo os sons (ou a falta deles) que minha filha ofereceu, fiquei preocupado no escuro da noite que eu nunca teria uma conversa com ela.

Por muitos meses, eu desejei ouvir a voz de minhas filhas. Uma dor me consumia toda vez que ouvia crianças da idade dela falando em frases enquanto eu continuava a me comunicar com a linguagem de sinais, dedos apontando e ocasionalmente gritando. Eu não conseguia superar o fato de que Charlotte não estava falando e de alguma forma sabia que, se e quando ela começasse a falar, eu apreciaria cada palavra.

*****

Eu ando em direção à cozinha enquanto ouço pequenos pés caminhando pelo corredor. Isaac chega primeiro com uma fralda limpa, graças ao pai, e ele vai direto para os armários. A porta do armário se abre, seguida pelo barulho de tigelas e pratos de plástico. Ele pega uma tigela e fecha a gaveta e corre para o outro balcão.

Os, os, os, tigela os!

Como voc√™ pergunta? Digo pela primeira vez, mas definitivamente n√£o a √ļltima.

Ele sorri e diz: Por favor, enquanto esfrega a mão em círculos sobre o peito. Ele não precisa da linguagem de sinais com seu vocabulário crescente, mas é um remanescente dos anos em que Charlotte não falou.

Finalmente, Charlotte chega e segue direto para o mesmo arm√°rio de tigelas, fechando-o igualmente alto. Ambos est√£o ao meu lado pedindo SO; duas tigelas e quatro m√£os estendendo a m√£o para mim.

Os também Charlotte aplaude.

Você quer OS? Eu pergunto.

Sim!

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Como você pergunta? Lá está novamente.

Por favor.

Segurando um suspiro, eu digo: A frase inteira, por favor. √Č a frase que usamos repetidamente para incentiv√°-la a falar em frases completas.

E, finalmente, com uma voz determinada, ela diz: I. Quero. Os. Por favor. Mama.

Bom falar, digo, repetindo uma frase que ouvi usada pelo nosso primeiro fonoaudiólogo.

Eu derramo o cereal deles enquanto Isaac balança seu corpo para cima e para baixo em emoção. Charlotte ri e aplaude.

Os, os, os, enche a cozinha com seu coro de vozes.

Bubba come, mam√£e, Charlotte me diz enquanto Isaac enfia outro punhado na boca.

Irm√£, tigela, Isaac responde, continuando a comer o seu.

Eu os assisto juntos e ouço suas vozes. Olho pela janela em direção ao sol e aos nossos vizinhos, imaginando se eles sentem tanta alegria com essas palavras simples. Olhando novamente para Charlotte e Isaac, vejo que, no momento, eles estão felizes e conversando juntos.

*****

Charlotte agora tem 4 anos e cada som, palavra e frase √© um presente. Eu assisti horas de terapia da fala aprendendo a imitar seu terapeuta. Uso muito a repeti√ß√£o e a m√ļsica, coloco palitos de picol√© na boca para mover a l√≠ngua para a posi√ß√£o correta e aplaudo toda vez que um novo som ou palavra surge da boca dela.

Digo repetidamente √† minha filha “obrigado” e “bom trabalho” quando ela diz as palavras corretamente. ‚ÄúA boa conversa se tornou parte do nosso vern√°culo.

No caminho para a pré-escola, um dia, Charlotte se agarra à sua mochila cheia do lanche da aula.

O que você trouxe para o lanche, Charlotte? Eu pergunto, sabendo que ela pode dizer as palavras, e que ela pediu especificamente para este lanche.

Uvas! Queijo também! Ela sorri com orgulho.

Isso parece t√£o bom!

Meus amigos gostam desse lanche. Eu rapidamente olho para minha filha e sorrio, admirada com o comprimento da frase e a amplitude de suas palavras.

Boa conversa! Essa é uma frase excelente, digo feliz.

Eu ou√ßo cada novo som e palavra como uma onda d’√°gua, surpreendendo e me encantando toda vez.

Eu sei que h√° momentos em que Charlotte e Isaacs brigam, choramingam incessantemente e perguntas me deixam maluca. Mas eu tamb√©m sei que toda palavra falada √© um presente, mesmo o alton√£oe os bufos de frustra√ß√£o quando um brinquedo √© levado por um irm√£o. Alguns dias, desejo mais tranq√ľilidade por minha sanidade e desejo me trancar no escrit√≥rio por alguns minutos de solid√£o, mas nunca desejei que meus filhos n√£o falassem.

Porque, seja no caf√© da manh√£ ou brigando no banco de tr√°s do carro, acordando de manh√£ cedo ou discutindo sobre quem brinca com os trens, as vozes e as palavras dos meus filhos surgem como minhas ora√ß√Ķes de gratid√£o.