M√£es s√£o as m√£es ‘culpadas’ durante esta pandemia

M√£es s√£o as m√£es 'culpadas' durante esta pandemia

Catherine Delahaye / Getty

Os esforços para retardar a disseminação do coronavírus prejudicaram a vida diária da maioria dos americanos. As empresas estão fechando. Os trabalhadores estão perdendo horas e até empregos. Quase todo mundo que pode trabalhar remotamente agora está trabalhando em casa e isso inclui crianças, pois as escolas em todo o país fecham suas portas.

Com a expectativa de que as escolas fiquem fechadas por semanas ou até meses, os pais são subitamente forçados a estudar em casa, muitas vezes ao mesmo tempo em que são solicitados a continuar trabalhando em seus empregos regulares. E a maior parte desse trabalho escolar em casa cairá para as mães.

O vírus em si pode não discriminar em quem ele infecta, mas em uma sociedade com ampla desigualdade de gênero, os efeitos colaterais não atingem todas as pessoas da mesma forma. Os pais estão enfrentando encargos que não são os pais e, entre esses pais, é provável que as mães sejam as mais atingidas.

Ao longo de três anos, pesquisei o ensino em casa para o meu próximo livro, pesquisando mais de 600 pais em idade escolar, entrevistando 46 deles e participando de conferências sobre ensino em casa. Descobri que, esmagadoramente, o trabalho de educar em casa recai sobre as mães.

Paco Navarro./Getty

A desigualdade salarial desempenhou um papel central nesse desequil√≠brio: para muitos, o pai tinha um emprego mais bem remunerado, por isso fazia sentido econ√īmico para a m√£e ficar em casa. Al√©m disso, muitas m√£es sentiram que tinham maior aptid√£o para o trabalho di√°rio envolvido na educa√ß√£o em casa. Alguns achavam que essa era uma diferen√ßa inata, enquanto outros se baseavam no mundo social de g√™nero de suas pr√≥prias inf√Ęncias, as meninas cuidavam de vizinhos ou ajudavam a cuidar de irm√£os e primos mais novos para explicar por que eles tinham habilidades que os tornavam os candidatos muito melhores para o cargo de Educa√ß√£o escolar em casa.

Nossas cren√ßas culturais sobre a maternidade s√£o fundamentais para explicar por que a educa√ß√£o em casa √© vista como o trabalho das mulheres. Os soci√≥logos argumentam h√° muito tempo que a paternidade nos Estados Unidos (e em outros lugares) √© uma pr√°tica diferenciada por g√™nero, onde a maternidade e a paternidade s√£o pr√°ticas espec√≠ficas de g√™nero. Apesar do aumento da participa√ß√£o das mulheres na for√ßa de trabalho remunerada nas √ļltimas d√©cadas, a educa√ß√£o dos filhos ainda √© amplamente entendida como trabalho das mulheres. As m√£es tendem a ser responsabilizadas pelas decis√Ķes que as fam√≠lias tomam sobre a educa√ß√£o dos filhos, incluindo decis√Ķes sobre a educa√ß√£o das crian√ßas. Se as m√£es s√£o respons√°veis ‚Äč‚Äčpela educa√ß√£o de seus filhos, faz sentido que assumam desproporcionalmente o trabalho associado a essa educa√ß√£o.

Minha pesquisa indica que as m√£es far√£o a maior parte do trabalho cuidando e educando as crian√ßas de nossas na√ß√Ķes durante o fechamento generalizado das escolas relacionadas ao coronav√≠rus. E nem todas as m√£es ser√£o igualmente capazes de faz√™-lo. M√£es que trabalham podem ser for√ßadas a escolher entre serem penalizadas por n√£o priorizarem o trabalho ou examinadas por n√£o priorizarem seus filhos. Algumas pessoas privilegiadas com economia, flexibilidade para trabalhar em casa ou um c√īnjuge com seguran√ßa no trabalho podem ter que reduzir o hor√°rio de trabalho ou tirar licen√ßas n√£o remuneradas. M√£es de baixa renda, m√£es de cor e m√£es solteiras, que j√° enfrentam mais escrut√≠nio por seus pais, ser√£o ainda mais afetadas. Aqueles que n√£o puderem dar um tempo sem arriscar seus empregos enfrentar√£o um estresse e um escrut√≠nio ainda mais intensos, e seus filhos sofrer√£o desnecessariamente como resultado.

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Os americanos parecem estar gradualmente aceitando a realidade de que o fechamento de escolas √© necess√°rio para combater essa pandemia. Enquanto isso acontece, n√≥s, como na√ß√£o, podemos tomar medidas para diminuir o fardo para as m√£es. No m√≠nimo, precisamos de uma pol√≠tica de folga de emerg√™ncia, nacional e paga, para todos os pais de crian√ßas menores de 12 anos. Os membros do Congresso est√£o debatendo v√°rias propostas para dar dinheiro a alguns ou a todos os americanos para compensar o impacto econ√īmico da pandemia. Essas propostas s√£o um bom come√ßo, mas n√£o levam em considera√ß√£o o trabalho extra que alguns assumiram devido ao fechamento da escola.

A educa√ß√£o √© um bem p√ļblico que apoiamos por meio da educa√ß√£o p√ļblica financiada pelos contribuintes. Nossas escolas n√£o s√£o apenas espa√ßos de aprendizado, mas de seguran√ßa e supervis√£o para crian√ßas pequenas. Enquanto as escolas est√£o fechadas, podemos continuar a apoiar a educa√ß√£o de nossos filhos pagando aos que est√£o agoraprovidenciando educa√ß√£o, seguran√ßa e supervis√£o principalmente para as m√£es. Pagar por esse trabalho √© uma maneira de continuarmos investindo em nossos filhos, garantindo ao mesmo tempo que as fam√≠lias permane√ßam √† tona financeiramente, se o hor√°rio de trabalho tiver que ser reduzido.

Minha maior esperan√ßa √© que, quando tudo estiver terminado e as escolas em todo o pa√≠s estejam de volta √† sess√£o, lembremos das muitas li√ß√Ķes sobre desigualdade social que essa pandemia inevitavelmente nos ensinar√°. Uma dessas li√ß√Ķes ser√° sobre o fardo que as m√£es depositam quando os servi√ßos p√ļblicos, como a educa√ß√£o, s√£o retirados. Espero que usemos essa experi√™ncia para advogar a melhoria de nossas escolas, como parte de um esfor√ßo maior para melhorar a infra-estrutura social que poderia nos apoiar melhor durante essas crises nacionais no futuro.