Eu era um adolescente que cortou. O apoio da minha família foi o que me salvou.

Eu era um adolescente que cortou. O apoio da minha família foi o que me salvou.

Eu era um adolescente que cortou. O apoio da minha família foi o que me salvou.

elenaleonova / iStock

N√£o me lembro de onde tirei a ideia. Talvez da escola. Talvez de um drama de TV adolescente. O que eu sabia, por√©m, √© que seria bom. Bem, “bom” n√£o importava. Eu s√≥ queria sentiralguma coisa.

Eu n√£o conhecia o termo t√©cnico at√© a terapia, mas sou conhecido como perfeccionista encoberto. Por fora, pare√ßo tudo “o que quer que aconte√ßa √© legal comigo, cara”, mas por dentro eu sou um pacote tenso de nervosismo. Eu preciso ser perfeito. Eu tenho que ser perfeito. Se eu falhasse nessa miss√£o, as consequ√™ncias seriam insuport√°veis.

Aos 15 anos, isso se manifestou ao colocar sobre mim uma quantidade obscena de press√£o. Eu tive que tirar boas notas para que meus professores gostassem de mim. Eu tinha que ser o bom garoto o tempo todo, para que meus pais me amassem. Eu tinha que ser tudo para todos, para que eles fossem felizes e isso, por sua vez, me faria feliz.

Na realidade, tudo isso teve o efeito oposto. A press√£o que coloquei em mim mesma, a exaust√£o de ser quem eu achava que precisava ser, me deixou entorpecida. N√£o sentia mais nada nem alegria, nem tristeza, nem dor. Eu era uma concha de adolescente com um sorriso colado no rosto e uma atitude relaxada para cumprimentar todos.

Ent√£o eu quebrei.

A tesoura estava no balc√£o do banheiro e, com as m√£os tr√™mulas, separei as l√Ęminas e cortei meu bra√ßo.

Isso machuca. Isso doi muito. Mas esse era o ponto. Eu senti algo de novo! Foi dor, mas foi alguma coisa. Foi mais do que eu senti em meses. E com a dor vieram l√°grimas. L√°grimas da carne rasgada no meu pulso, sim, mas tamb√©m apenas l√°grimas de libera√ß√£o. Emo√ß√Ķes bloqueadas e entupidas foram desencadeadas naquele momento horr√≠vel. Eu podia sentir de novo.

O corte continuou por meses. Eu me sinto sobrecarregado, deprimido, entorpecido e depois libero tudo novamente por meio de auto-mutilação.

Minha irmã acabou descobrindo e contou aos nossos pais. Senti amor incondicional naquela noite. Eu senti. Eu senti uma emoção positiva depois de meses de escuridão.

A terapia me ajudou a descobrir que sofri de um epis√≥dio depressivo grave e, ao longo dos anos, aprendi que a depress√£o em suas v√°rias formas faz parte de mim. E tudo bem. √Č algo com o qual convivo diariamente e sou grato pela medica√ß√£o que possibilita a vida di√°ria. Eu gostaria de ter esses recursos no ensino m√©dio.

Esta √© apenas a minha hist√≥ria de por que me machuquei. Senti muita press√£o para ser perfeito, e quase me matou. Por fora, sei que alguns adolescentes parecem estar passando pela ang√ļstia hormonal t√≠pica que acompanha esses anos, mas isso n√£o √© verdade para todos os adolescentes. Alguns deles est√£o realmente sofrendo e precisam de algu√©m para alcan√ß√°-los. Para fazer perguntas e ouvir atentamente. Para abra√ß√°-los e amar neles. Para oferecer suporte.

Se algo com o seu conte√ļdo estiver errado, n√£o o varra para debaixo do tapete e descarte-o como algo que todo mundo passa. Pode ser assustador saber a verdade, ver as cicatrizes, mas voc√™ pode ser uma luz. Voc√™ pode salvar a vida deles, como meus pais e minha irm√£ salvaram a minha.