Anunciei minha gravidez cedo, caso eu tivesse aborto

Anunciei minha gravidez cedo, caso eu tivesse aborto

Anunciei minha gravidez cedo, caso eu tivesse aborto

MivPiv / Getty

Existem muitas normas sociais em torno da gravidez, parto e educação dos filhos que podem parecer tão óbvias para uma mãe de primeira viagem, que você não as questiona, como se o caminho fosse tão desgastado que você pode encontrar facilmente o caminho seguindo todas as mães que vieram antes de você.

Aprendi na minha primeira gravidez que seguir os conselhos n√£o tornava as coisas necessariamente mais f√°ceis ou at√© melhores, e fiquei c√©tico e um pouco c√≠nico em rela√ß√£o a todos os conselhos que recebi ao longo dos anos. √Ä medida que me sinto mais √† vontade como m√£e, aprendi a ignorar os conselhos, deixar de lado as opini√Ķes e n√£o confio em todas as m√£es s√°bias que vieram antes de mim.

Quando descobri que estava gr√°vida pela segunda vez, lembrei-me daquela regra muito tradicional e quase ininterrupta de n√£o anunciar a gravidez at√© o segundo trimestre ou a marca de 12 semanas. Assim como eu me lembrava da minha primeira gravidez, minha paisagem emocional ficou nublada, minha sa√ļde f√≠sica falhou e meu corpo come√ßou a se expandir e mudar, enquanto meus planos de vida a curto e longo prazo assumiram uma forma nova e diferente. E, no entanto, eu deveria manter todas essas grandes mudan√ßas em segredo por mais dois ou tr√™s meses. Ocorreu-me como isso era um fardo, n√£o apenas porque sou um extrovertido e extrovertido que gosta de falar sobre minhas experi√™ncias, mas tamb√©m porque me pareceu responsabilidade minha, n√£o deix√°-lo escapar.

Comecei a me perguntar Рquem vai se machucar se esse segredo for revelado? Por que as pessoas não deveriam saber sobre essa mudança maciça acontecendo na minha vida?

A √ļnica raz√£o pela qual eu pude pensar, o que ouvi repetidamente, foi: E se voc√™ tiver um aborto espont√Ęneo? A id√©ia √© que, como a chance de aborto espont√Ęneo √© alta at√© o primeiro trimestre, voc√™ n√£o precisar√° compartilhar essas not√≠cias devastadoras ou discutir sua perda de gravidez. Mas ainda cheguei √† mesma conclus√£opor que eu iria querer manter isso em segredo? Meu empregador n√£o deveria entender completamente a devasta√ß√£o f√≠sica e emocional da perda de gravidez? Meus amigos e familiares n√£o deveriam estar l√° para me apoiar e at√© experimentar esse mesmo sentimento de perda compartilhada?

Quanto mais eu pensava sobre isso, mais problem√°tico se tornava para mim, essa ideia de que havia algo t√£o errado com aborto, t√£o errado com m√£es que perdem um beb√™, que devemos escond√™-lo e nos encolher de vergonha? Em que outra circunst√Ęncia tr√°gica da vida somos convidados a lidar com isso de maneira t√£o particular, t√£o sozinha? Somos convidados a lidar com a morte de um dos pais ou do c√īnjuge sem apoio? C√Ęncer e outras doen√ßas? A morte de uma crian√ßa? Por que o aborto deve ser diferente?

A √ļnica conclus√£o que pude fazer √© que essa √© outra a√ß√£o patriarcal que for√ßa as mulheres a sentirem vergonha de que seus corpos n√£o aguentem, que algo est√° errado e que elas devem carregar a vergonha e o fardo sozinhos.

Decidi anunciar minha gravidez √†s 8 semanas, pouco depois de descobrir. Decidi dar la√ßos a todos o mais r√°pido poss√≠vel, n√£o apesar da possibilidade de aborto, mas por causa disso. Eu disse ao meu empregador √†s 8 semanas porque, se eu abortasse, queria poder ter apoio e at√© faltar ao trabalho, se fosse necess√°rio. Eu disse aos meus amigos e conhecidos mais pr√≥ximos, porque se eu abortasse, queria poder conversar com eles sobre isso. Eu queria que eles fossem capazes de entender todo o escopo da perda, o que eles realmente poderiam fazer se estivessem envolvidos desde o in√≠cio. Eu disse √† minha fam√≠lia, porque eles tamb√©m sentiriam a perda de um aborto, um poss√≠vel membro da fam√≠lia, e eu queria que isso fosse compartilhado, n√£o algo que eu tivesse que sentir ou lutar sozinho. No final, eu sabia que aborto espont√Ęneo n√£o era algo que eu deveria enfrentar sem empatia e apoio.

Eu ouço muitas mulheres falando sobre como o aborto se sentiu tão solitário, uma dor que elas tiveram que sofrer com tanta privacidade. Não estou surpreso que as mulheres se sintam sozinhas no aborto, dada a norma social de escondermos a gravidez e basicamente nos dizem que é vergonhoso abortar. Não estou dizendo que ainda não é difícil falar ou que a perda extrema pode ser atenuada, mas acho que, removendo a vergonha do aborto, incluindo nossas famílias e comunidades desde o início (quando estivermos prontos), colocaremos o fim dessa prática prejudicial e psicologicamente prejudicial. Esconder a gravidez por causa da chance de aborto perpetua a vergonha do aborto e, finalmente, deixa todos nós nos sentirmos mais sozinhos quando o inevitável acontece, antes ou depois da marca de 12 semanas.