A infertilidade me transformou em um buraco A

A infertilidade me transformou em um buraco A

A infertilidade me transformou em um buraco A

Em novembro do ano passado, enviei uma hist√≥ria emoji (dois cora√ß√Ķes, cama, ampulheta, mamadeira) para uma amiga querida, revelando que estava gr√°vida. Foi engra√ßado, porque ela pensou que eu estava perguntando se ela estava gr√°vida. Ela mandou uma mensagem em resposta, Sim! Como se viu, ela estava esperando tamb√©m. Eu tinha apenas cinco semanas e meia de dura√ß√£o, mas precisava contar a algu√©m. Embora tivesse abortado um ano antes, imaginei que se isso acontecesse novamente, era um amigo com quem eu poderia conversar sobre essa perda. Mas eu mal imaginava que duplicaria o mesmo destino do ano anterior. Meu amigo durou oito semanas e meia. E v√°rios anos mais novo que eu.

Você sabe onde isso está indo, não é?

Eu abortei. Era como dj vu. A mesma j√≥ia vermelha brilhante de sangue no papel higi√™nico. A mesma c√£ibra profunda. O mesmo boletim on-line me informando que o feto era do tamanho de uma semente de papoula, que um batimento card√≠aco teria sido ouvido algumas semanas depois. Meu filho disse: “Mam√£e, voc√™ est√° bem”, como ele afagava minha cabe√ßa sempre que me pegava chorando. T√£o cedo na gravidez, esse embri√£o √© apenas um sussurro de talvez. Mal se pode cham√°-lo de “abortar” quando o que √© transportado √© apenas um gr√£o de esperan√ßa. Isso n√£o significa que eu poderia esquecer como a linha do teste de gravidez era s√≥lida e inabal√°vel. Desde ent√£o, vi fotos da minha linda amiga com a barriga inchada e a sensa√ß√£o que brota em mim √© repugnante. Embora eu clique em “curtir” no Facebook, n√£o consigo digitar palavras que jorrem de alegria. De fato, a inveja √© uma coisa feia.

Outra amiga √≠ntima revelou em um e-mail recente que est√° gr√°vida do terceiro. Eu n√£o escrevi uma resposta de felicita√ß√Ķes. Ah, claro, posso dizer que estou feliz por ela. Para eles. Certamente n√£o desejo m√° vontade nem nenhum dano aos seus filhos ainda n√£o nascidos. Quero imaginar a casa dos meus amigos cheia de prazer, mas n√£o consigo fazer com que as boas inten√ß√Ķes da minha mente cheguem ao meu cora√ß√£o. Eles param por a√≠, com frio. E quando menos conhecidos postam suas gravidezes nas m√≠dias sociais, geralmente o primeiro pensamento que serpenteia no meu c√©rebro √© Que bom pra voc√™. Quando levo meu filho para casa da escola e vejo m√£es muito jovens caminhando com seus dois filhos revelando que em breve haver√° mais tempo que o desprezo praticamente sai de mim, cheirando a vizinhan√ßa.

Voc√™ v√™ no par√°grafo acima como eu mencionei que tenho um filho? √Č verdade. eu sou super sortudo t√™-lo. Eu sei isso. Eu tenho um √≥timo marido e uma incr√≠vel filha de 6 anos. Em bons dias, aprecio a economia de haiku da minha fam√≠lia; em dias ruins, tudo o que sinto √© uma defici√™ncia. Ent√£o meu √ļnico garoto especial, uma pessoa t√£o legal, se torna tudo sobre o r√≥tulo autista, que foi dado a ele h√° alguns anos. Meu marido, que √© excelente como pai, que limpa e cozinha, que √© bem-arrumado, bem-falado, empregado em uma carreira satisfat√≥ria e se torna totalmente quente, o homem que n√£o me daria um segundo filho no que deve ter sido os dois √ļltimos anos da minha fertilidade. Quando dou uma guinada negativa nas minhas circunst√Ęncias, o duende de autopiedade √© o culpado. E quando aparece, eu me lamento por nunca mais querer segurar um beb√™, porque s√≥ tenho que devolv√™-lo, tudo enquanto limpo l√°grimas de raiva do meu rosto enquanto dirigo sozinha para o trabalho.

Eu estou consumido. Penso nos ov√°rios como rom√£s lan√ßando sementes gordas e vermelhas no in√≠cio da fertilidade, e o que me resta agora s√£o as poucas an√™micas agarradas √†s paredes das c√Ęmaras quase vazias. Eu me pergunto por que ningu√©m vai me dar um daqueles beb√™s indesejados das not√≠cias, morto no momento em que li sobre eles. Penso em certas mulheres que colecionam bonecas, que s√£o r√©plicas assustadoramente perfeitas de beb√™s rec√©m-nascidos com os olhos fechados, m√£os pequenas enroladas em punhos min√ļsculos. Na televis√£o, vi uma mulher que os criou, seu hobby como resultado de m√ļltiplos abortos e a conseq√ľente falta de filhos. Eu me pergunto at√© que ponto eu tamb√©m posso me levar a uma n√©voa de tristeza e se posso ser recuperada dela.

Ent√£o eu me vejo morbidamente obcecado por what-ifs. Conheci um poeta e lembre-se de como o s√≥t√£o dela em Los Angeles ficava em uma janela de janelas enquanto Bryan Ferry tocava no alto e me lembrou, devo esquecer, que sou uma escrava do amor. Contei ao poeta sobre meu filho como, aos seis anos, ele finalmente parece tang√≠vel, indel√©vel, capaz de estar aqui para sempre, e contei a ela sobre nossas tentativas fracassadas de ter um segundo filho. Ela ofereceu: “N√≥s conseguimos o que conseguimos” e “Todos n√≥s temos nossas cruzes para aguentar”. Mencionei o professor de pr√©-escola do meu filho, que terminou: “N√≥s conseguimos o que conseguimos” com “… n√£o ficamos chateados”. Ent√£o eu perguntei: “Voc√™ tem filhos?” “Eu tive um filho”, disse ela, “mas ele faleceu”. Uma cruz pendia entre suas duas janelas. Minhas desculpas ainda est√£o no ar, junto com o meu medo.

Nunca invejei ninguém a casa grande, o carro chique, o talento incomum ou o marido rico. Mas eu queria um segundo filho e não vou ter um. Enquanto isso, meus amigos são mais jovens do que eu e continuo acrescentando às suas famílias. Quando vejo mulheres muito jovens na mercearia sacar seus vales WIC enquanto empurram crianças em carrinhos de compras, eu acho, Por que estou pagando impostos para que você possa continuar tendo bebês? Quando mulheres perfeitamente amáveis, com famílias numerosas, reclamam de exaustão, tudo o que posso pensar é: Talvez você não devesse ter tido tantos filhos do caralho. A infertilidade relacionada à idade me fez um idiota.

Sem d√ļvida, h√° mulheres que me invejam por causa do meu filho. Lembro-me da do√ßura dolorosa quando ele se agarrou pela primeira vez, aquela c√£ibra no meu est√īmago quando sua boca pequena puxou meu corpo de volta. Atordoada, chorei ao dobrar o gorro e a camisa que ele usava do hospital, guardada agora em um Ziploc junto com todos os meus detritos da maternidade, escondidos em um s√≥t√£o, bem fora de vista. Um membro da fam√≠lia me conta como, durante os anos em que ele e a esposa tentaram e falharam em ter um filho, sua esposa quis estrangular todos os amigos que anunciaram uma gravidez. Eles nunca chegaram a ter um filho. Quando n√£o conseguimos o que mais queremos e vemos outros que conseguem o que queremos, isso torna a aus√™ncia mais amarga. Tenho certeza de que, quando anunciei minha pr√≥pria gravidez, a que me deu filhos em algum lugar, um conhecido murmurou, “Que porra legal para ela.”

E se eu disser que estou tentando? Admitir que sou regularmente dominado por sentimentos sombrios pode ser o primeiro passo para a reabilita√ß√£o, n√£o √©? Aqui estou, estendendo a m√£o. Eu tentei terapia, mas parei quando meu terapeuta ofereceu linguagem banal que queria ser significativa, mas n√£o era. Eu tentei me dedicar ao meu trabalho como escritor. Repito regularmente o mantra de que estou ‚Äúpraticando gratid√£o‚ÄĚ, esperando que ele permane√ßa. Eu tomei antidepressivos, o que significa que choro com menos frequ√™ncia, durmo com menos frequ√™ncia. Sinto-me mais capaz, com certeza, como se eu pudesse rolar melhor pela vida agora que recebi uma casca agrad√°vel, espessa e induzida quimicamente. O problema √© se a polpa embaixo dela pode ado√ßar novamente ou se estou destinada a ter esse novo cora√ß√£o azedo: verde, azedo e √°cido como lim√£o.

Este não é quem eu sou. Ou quem eu era. Ou, pelo menos, quem eu quero ser.